O dia nasce, acordar sempre é difícil. Mesmo sabendo que ele nasceu as 00:00 horas de ontem, para nós ele só nasce mesmo, quase sempre, no momento que acordamos. O desnorteio no acordar é algo constante. Olhar para os lados e mesmo com as paredes do quarto, bem conhecidas ou não, marcantes ou não, ainda assim demoramos um pouco a reconhecê-las. Tudo isso dura apenas uma pequena fração de segundo e logo aquele “déjà vu” vem à tona e percebemos que ali adormecemos no dia anterior. É claro que isso acontece quando fomos para cama, tranqüila ou intranquilamente, mas fomos, e não levados já tomados pelo sono profundo e uniforme, que não nos permitiu olhar ao redor e perceber o que aconteceu.Mas nascer também é difícil, assim como acordar. Deve ser porque o nascimento é um primeiro despertar. O despertar dos sonhos flutuantes do escuro, porém quente e aconchegante ventre materno. Ali os sonhos são influenciados pelos sentimentos da mãe, o alimento é recebido pela influencia da mãe. Tudo que nos nutre vem da mãe, aquela a qual nem mesmo conhecemos o rosto mas o que recebemos provindo dela nos promove segurança. O desligamento desta situação, o acordar para o mundo desconhecido luminoso é o mais difícil dos traumas. Nascer é traumático.
O nascimento ou o despertar de um novo ano, talvez seja o mais fácil e festejado nascimento. Talvez porque seja um acontecimento paradoxal, demorado a vir e extremamente rápido a passar. Ano após ano ele vem, dura apenas o tempo da última badalada, a transposição das 11:59 para as 00:00 hora. É fácil por ser tão festejado e repleto dos prazeres, carnais e transcendentes. Os últimos segundos entre a morte e o nascimento são comemorados um a um. Enfim um nasce e outro morre, o mais natural, simples e com menor teor traumático dos nascimentos e, diga-se de passagem, a mais natural das mortes.
Assim como um astro morre para dar vida a outro, um ano morre para que outro viva, e viva abundantemente seus longos 365 dias (366 em ano bi-sexto). Um dia morre para que outro tenha seu nascimento. Mas sendo estas mortes e nascimentos temporais tão simples e totalmente compreensíveis, porque nos debatemos tanto com nosso nascimento e mais ainda com nossa morte? “De onde viemos e para onde vamos”, para que tanta angustia? Os traumas são inevitáveis, nascer morrer, tudo vem naturalmente, tudo passa, na hora certa, mesmo que não aceitemos. O aceitar é um mero detalhe na paisagem, o natural vem, tão certo como o nascer do dia.
O ano que passou foi mais um da chamada “caminhada” ou “estrada” que é a vida. Estes codinomes dados a vida são fáceis de se compreender. Passar pela vida é algo simples de se compreender. Ao fim e ao cabo, pouco antes do dormir, do morrer percebe-se que tudo aquilo, todos aqueles encantos e desencantos, todos os sonhos e pesadelos, todos os traumas e prazeres, tudo foi a simples e pura vaidade, e passou rápido demais. Como diria o grande arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer, aos sem anos de idade, “a vida é um sopro”.
A morte de um dia, a morte de um ano, a morte de um ser. Parecidas, correlatas, simples alusões. Porque iniciar um ano pensando em morte? Morrer não é algo ruim? Eu digo que sim, é mesmo, morrer é algo difícil, mas não ruim. Tudo que você criou no ano passado, tudo que arquitetou, planos, metas, tudo morreu e foi sepultado com o ano que se passou. Mas como, neste caso a morte da lugar a vida, poder ter mais um chance de fazer o não feito, realizar o não realizado é muito bom. Neste ponto devemos sim começar o ano pensando na morte. A morte do que foi antigo e passado, e pensar no que ainda pode ser feito. Isso não por esperar algo maior, não para satisfazer quem quer que seja, não para um dia no futuro vangloriar-se das façanhas passadas. Mas para simplesmente sentar na beira da estrada e dizer “foi longa, mas estou aqui, poxa, aqui já, andei bastante, andei bem”. Entende o que eu digo. O simples passar é o cheque-mate do jogo, é a resposta à charada angustiante, é a disfunção do desejo de mais respostas. Simples assim, como a passagem do dia e do ano. Encarar as coisas de maneira simples as deixa menores, mais fáceis de derrotar.
Neste ano encare a morte, a mudança, as respostas indesejadas, tenha paciência, e lembre-se, passar muitas vezes, ou quase sempre, é melhor do que acordar. O sopro e o sonho tem muito em comum.
N.A.: Um bom 2008 para todos, um abraço. Nos vemos aqui neste espaço, até uma proxima!







Seria cômico se não fosse triste!




Corpo de Che na lavanderia de um hospital em Vallegrande
Estátua de Che na Bolívia
Vila La Higuera, homenagem a Che
Monumento em Cuba















