
j.a.
quem é o safado aqui? a conversa é aberta com esse grito interno, que pela boca passa como assobio baixo, contido. uma coisa ficou presa na garganta, ela quer explodir e quando ganha o nervo do braço esquerdo acaba em forma de murro na parede. a mão sangra e o sangue escorre, um carimbo vermelho borrado nos ladrilhos. então outro soco, com a outra mão e agora de lado, é desferido contra a mesma superfície. a força não é suficiente para romper os tecidos superficiais da pele, mas consegue quebrar em várias partes os ossos que vão do dedo mínimo até o antebraço. resta a cabeça. aguenta três golpes, as têmporas chocam contra o concreto manchado. cai inerte, sem tremer uma só vez. violência com as próprias mãos. o fim grotesco de cinco horas de gritos contidos no banheiro. repetições e mais repetições, as mesmas dezesseis letras sussurradas milhares de vezes, quicando nas paredes, no chão e no teto do cubículo com uma única luz que vem da clarabóia. violência com as próprias mãos. só quando o barulho do punho esquerdo, na queda, que acerta e quebra a base de uma das folhas de acrílico que compõe a divisão entre a área do chuveiro e a da pia/privada é que se dão conta. o aceno é secreto.

j.a.
as mãos chamam atenção, não se sabe porque.
2 comentários:
Mãos...
Porque pertence a elas a ação!
bjo
Incrivelmente são elas que se manifestam em diversos momentos de nossa vida; desde os mais suaves aos mais tensos.
Muito inspirador!
Postar um comentário